• Lá ... no lugar onde as almas habitam

     

                  FILHOS DA DESGRAÇA

                             (1790)

     

     O vento soprava em turbilhão. Um assobio gelado ganhava velocidade pelas vertentes íngremes da serra, afiava-se nas esquinas das rochas de granito como pontas de navalha. Agigantava-se pelo vale glaciar abaixo, até ser despejado em rajadas cortantes pelas ruas da Vila.

    O interior do país ficava naquele tempo mais longe do mar, tão longe, que a maior parte das pessoas em vários séculos não saberiam da sua existência, e ainda que soubessem jamais o viriam a conhecer. Longe do mar, mas perto das montanhas. Á beira da Serra, a neve permanecia por longos dias durante os meses de Inverno. Fez-se história, com a vida possível de um povo lutador. Aquela Vila acolhedora do sopé da serra era o centro do mundo conhecido, que se reinventava em cada repetição gasta dos rituais quotidianos, quer religiosos quer sociais. Cultura transmitida oralmente, lida e relida na palma da mão com a facilidade de quem percorre caminhos de terra. Sulcos profundos na pele das intempéries, ou calosidades de tanto caminhar. Era esta Vila, o palco onde a tragédia quotidiana se desenrolava, na repetição de anos sucessivos.

    Os campos eram imensos, cheios de matagais, moldados pela dureza do granito que lhes dava um cariz acidentado e bravio.

     A pastorícia animava uma chusma de seres vivos em transumância, nos rituais cúmplices de rotinas e hábitos aprendidos. Poucas terras eram boas para o cultivo e todas tinham dono. As que havia davam uns cereais infezados e insuficientes. Nas terras alagadiças os tubérculos com míldio deixavam o ar fétido a podridão. Não só por isso, todas as pessoas pobres tornavam-se em cada minuto mais dependentes dos ricos proprietários e do clero que os excomungava em cada deslize e os condenava á miséria que sustentava tanta opulência. Os ricos senhores a par do clero eram os principais proprietários que arrebataram das concessões régias, território e trabalhadores. Uns pela defesa da vida e do património, outros pela salvação das almas, arrogaram-se o direito ao poder.

     Os aldeãos labutavam dia e noite por um pedaço de pão que lhes adiasse a morte. Esperavam ser absolvidos dos pecados com as penitências em latim, uma língua mal compreendida que se misturava com o dialeto arcaico de uma pronúncia regional acentuada. Uma grande parte das pessoas nascia e morria sem se importar se o mundo seria redondo ou quadrado. Tal como animais esforçados, lavravam, semeavam e colhiam. Enchiam os celeiros dos senhores, ano após ano sempre com o espectro da fome a bloquear-lhes a ousadia de ideias novas. A única consolação que lhes restava era a de acreditarem que um dia teriam o céu á espera e que na terra não seriam merecedores de outro prazer, que não fosse a consideração de ser bom trabalhador. A mulher seria o símbolo máximo de servidão, consentindo-lhe o prazer, ainda que confundido com procriação. A esposa, se boa-parideira era engrandecida, como mãe dos seus filhos, seria uma mais-valia sua. Os filhos aos montões se para uns, eram o símbolo do castigo de Deus pelo vício do prazer carnal, para outros eram mão-de-obra barata. Quanto mais filhos tivessem mais terrenos poderiam cultivar. A riqueza vinha da terra, apesar de a miséria ser um factor permanente e preponderante na vida da maior parte das pessoas. Por isso a vida era a repetição gasta dos dias que se sucediam sempre iguais. Mas os homens não desistiam de viver porque algo de intuitivo repetia constantemente que a vida não podia ser aquilo, um dia seria outra coisa bem mais suave. Não ambicionavam o poder prepotente e demolidor, associavam-se a ele para que os filhos e netos pudessem um dia usufruir tais regalias, sabiam que aquele tipo de organização social, se iria manter para todo o sempre das suas vidas, inalterado. Por isso apenas pediam um pouco de justiça e compaixão para com os filhos que morriam atacados pelas doenças. Aceitavam a condição de pobres pecadores, como castigo divino ou demoníaco, porque manipulados pela fé que lhes incutiam desde pequenos. Obedeciam esperando salvar um pouco de céu para descansar os corpos moídos de tantos trabalhos. Depois de alguns anos de luta diária apercebiam-se de que a vida entrara na fase irreversível, tudo se iria manter imutável até ao final. Enquanto os filhos estivessem na sua alçada usavam-nos como extensões deles próprios para chegar a todo o lado, dando cumprimento a todos os compromissos. Exigindo das suas fracas capacidades de crianças, um amadurecimento e uma responsabilidade imposta com violência, policiada pelos patrões que denunciavam a rebeldia, contribuindo para a punição que domesticava. Da mesma forma que os animais foram domesticados desde, a pré-história, quando os homens se tornaram sedentários e inventaram a agricultura. Foi em prole da agricultura e dos rendimentos familiares que os pais pediam aos professores autorização para que os filhos pudessem faltar á escola em dias de grande azáfama. Desde muito novos aprenderam a conduzir, parelhas de vacas pelos campos de forma mais eficiente que a juntar letras. Aprenderam as tarefas do campo pela força do hábito.

     Os homens não lutavam pelos filhos, lutavam por eles próprios, lutavam por responder às expectativas que lhe criaram, lutavam por manter a dignidade, que lhe vendiam confundida com conveniência e submissão. Mas eles não sabiam usar o pensamento para além dos formatos impostos, não sabiam ler nem escrever. E quando os filhos se emancipavam pelo casamento, perdiam a força recebida dos seus clones, que libertos agiam por conta própria, na repetição infinita da sujeição instituída. Não lutavam para que os filhos conseguissem um futuro melhor. Lutavam por orgulho de ser o que eram. Apesar de aprenderem a ler e escrever, ainda não sabiam usar o pensamento de forma critica. Muito lentamente foi-se assistindo ao progresso. Para haver progresso devia haver engenho e arte, havia que confrontar a mentalidade instalada e sacudir o poder, havia que lutar e morrer por um ideal. Morrer não seria difícil, porque morrer era o que havia de mais certo e a morte encontrava-se ao virar de cada esquina.

    Os ideais eram pensamentos ousados de gente desocupada, de fidalgos e aristocratas, de filhos esclarecidos que tinham nascido da burguesia.

     O Ócio era também a atividade preferida, dos filhos de senhores feudais que ao florescerem pela Europa se instalaram tardiamente em terras lusas. Filhos esses que se transformaram em herdeiros das possessões e tal como os seus pais, apenas aproveitaram a mão-de-obra barata.

    Ganhar dinheiro, fazer fortuna era o objectivo primeiro por isso quanto mais terras tivessem mais arrendatários para as tratar. Era a ordem social que mantinha todos no seu lugar, definido á nascença e aceite como condição, para uns matar a fome, para outros fazer fortuna. Desde Funcionários públicos a fidalgos da corte todos relacionados na teia que se alternava em cargos e funções, que lhes permitia distribuir os rendimentos e impostos num festim de necrófagos, que ceifava vidas pelas fracas condições de subsistência dada a quem trabalhava.

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  • Mudas-te........Mudámos

    Blogue de opraticante :O Praticante, Mudas-te........Mudámos

    O nosso projecto mudou-se de armas e bagagens.

    Mude-se também e acompanhe-nos através do nosso site, totalmente reestruturado, mais dinâmico, atrativo e um potencial divulgador das modalidades, e das empresas que nos escolhem para se divulgar

    www.opraticante.pt 


    E também na nossa página do Facebook, em crescendo no número de GOSTOS

    https://www.facebook.com/OPraticanteRevista

    Contamos com a sua visita, e que nos ajude a divulgar este projecto, inclusive remetendo-nos noticias para o email ( opraticantenoticias@gmail.com ), com os artigos em word e pelo menos uma foto em JPG, na horizontal, com a máxima qualidade, sempre anexadas ao email, que providenciaremos a sua divulgação, tão celere o consigamos.

    Este Blogue desporto será eliminado dia 5 de Outubro, esperamos por vocês nos novos meios

     

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  • Hino Nacional e Bandeira de Portugal.

    Informação.

    Este blog está em pausa. por falta de ssunto,

    Lima

     

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    HINO NACIONAL - LETRA 
    Versão oficial de "A Portuguesa"  

    Heróis do mar, nobre Povo,

    Nação valente, imortal,

    Levantai hoje de novo

    O esplendor de Portugal!

    Entre as brumas da memória,

    Ó Pátria, sente-se a voz,

    Dos teus egrégios avós,

    Que há-de guiar-te à vitória!

    Às armas, às armas!

    Sobre a terra, sobre o mar,

    Às armas, às armas!

    Pela Pátria lutar

    Contra os canhões marchar, marchar!

    Composição

    Alfredo Keil

    Henrique Lopes de Mendonça.

    ---  {#}  --- 

    {#}  


     

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  • Fotos e vídeos do almoço

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    Fotos do almoço

    Camaradas e amigos que puderam e fizeram questão de vir dar um abraço ao velho amigo, alguns outros que faziam questão de vir, mas que os percalços da vida não lhes permitiu, Camarada Pena, que sei perfeitamente que se pudesse viria, mas não pode, deixou abraços para todos nós, camarada Carlos Martins, ficou sem carro não pode vir, deixou abraços, Orlando Pires, falecimento de um familiar, Infelizmente, deixou abraços para todos, Mário fontes, doente, também deixou abraços, e alguns que disseram que vinham, mas não apareceram, ainda não sei a razão porquê, para todos o meu muito obrigada, em breve enviarei as fotos e vídeos.

    Obrigada e grande abraço


     

     

     

     

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  • Ruralidades III

    Blogue de sisco :MUITO ME TARDA..., Ruralidades III
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